O que aconteceu
A Meta deu um golpe duríssimo na indústria de Realidade Virtual nesta semana. Como parte de uma redução de aproximadamente 10% na divisão Reality Labs, a gigante da tecnologia confirmou o fechamento de três dos seus estúdios internos mais renomados: Sanzaru Games, Twisted Pixel Games e Armature Studio.
A decisão representa um dos movimentos mais agressivos da empresa desde o início da aposta no metaverso e sinaliza uma mudança estratégica profunda, com Mark Zuckerberg deslocando o foco de jogos AAA em VR para IA generativa, dispositivos vestíveis (wearables) e tecnologias de uso cotidiano.
Os estúdios afetados: um golpe direto no coração do VR
O impacto da decisão é profundo, especialmente para os usuários dos headsets Meta Quest, que viam nesses estúdios a garantia de experiências premium e exclusivas.
Sanzaru Games – O “Skyrim do VR”
Adquirida pela Meta em 2020, a Sanzaru Games se tornou um dos pilares do catálogo de VR da empresa. O estúdio foi responsável por Asgard’s Wrath e Asgard’s Wrath 2, títulos frequentemente descritos como o “Skyrim do VR” devido à escala, profundidade de sistemas, narrativa robusta e ambição técnica.
O fechamento da Sanzaru praticamente encerra qualquer expectativa de uma continuação direta desenvolvida internamente e marca o fim de uma das franquias mais importantes já criadas exclusivamente para realidade virtual.
Twisted Pixel Games – criatividade, narrativa e projetos interrompidos
A Twisted Pixel Games tem um histórico respeitado na indústria, especialmente no VR. O estúdio ficou conhecido por experiências narrativas marcantes como Wilson’s Heart, um dos primeiros grandes jogos de terror psicológico em realidade virtual, além de títulos focados em combate corpo a corpo como Path of the Warrior.
Nos bastidores, havia expectativas — e rumores consistentes dentro da indústria — de que a Twisted Pixel estivesse envolvida em novos projetos baseados em grandes propriedades intelectuais, impulsionados pelo sucesso recente do personagem Deadpool no cinema. Com o fechamento do estúdio, esses projetos não anunciados teriam sido automaticamente cancelados, reforçando o impacto criativo da decisão.
Armature Studio – o padrão ouro das conversões VR
A Armature Studio ganhou reconhecimento mundial ao realizar a adaptação de Resident Evil 4 VR, considerada por muitos especialistas como a melhor conversão de um jogo tradicional para realidade virtual já feita.
O sucesso do título ajudou a legitimar o Quest como plataforma viável para experiências AAA adaptadas. O encerramento do estúdio indica que a Meta não pretende mais investir pesado nesse tipo de produção interna, mesmo quando os resultados técnicos e de crítica são positivos.
Demissões e a escala real da reestruturação
O fechamento dos estúdios faz parte de uma rodada maior de cortes que atinge cerca de 10% da Reality Labs, divisão que empregava aproximadamente 15 mil pessoas. Estimativas do mercado indicam que mais de mil funcionários foram desligados, com impacto direto em:
- Desenvolvimento de jogos VR
- Pesquisa e engenharia
- Design de produto
- Aplicativos de bem-estar e fitness
A Meta confirmou os cortes em comunicados internos e em declarações a veículos como o The Verge, classificando a medida como uma reorganização estratégica de longo prazo.
O que acontece com os jogos atuais?
Segundo documentos revelados pela Bloomberg e confirmações oficiais da Meta:
- Jogos já lançados continuarão disponíveis e funcionais
- Atualizações críticas e correções de bugs serão mantidas
- Novos conteúdos, expansões e sequências foram cancelados
Na prática, isso significa que títulos como Asgard’s Wrath 2, Resident Evil 4 VR e Wilson’s Heart devem entrar em um estado de manutenção permanente, sem grandes novidades no futuro.
O caso Within (Supernatural): o detalhe que chama atenção
Um ponto que não passou despercebido por analistas da indústria envolve a Within, empresa responsável pelo aplicativo de fitness Supernatural.
A aquisição da Within foi extremamente polêmica, chegando a ser contestada judicialmente pela FTC (Federal Trade Commission) dos Estados Unidos. A Meta venceu a disputa após uma longa batalha legal, defendendo que a compra era estratégica para seu ecossistema de VR.
Agora, ironicamente, o aplicativo enfrenta redução de investimentos e de produção de novos conteúdos, mantendo apenas a operação básica. Para muitos observadores, isso demonstra que nem mesmo ativos pelos quais a Meta lutou nos tribunais estão protegidos da nova fase de cortes.
A nova direção da Meta: menos jogos, mais utilidade
O pano de fundo da decisão é financeiro e estratégico. A Reality Labs acumulou bilhões de dólares em prejuízo nos últimos anos, mesmo com o sucesso comercial do hardware Quest.
A nova prioridade da Meta inclui:
- IA generativa aplicada ao dia a dia
- Óculos inteligentes e wearables
- Realidade aumentada leve (AR)
- Monitoramento de saúde e bem-estar
A empresa aposta agora em produtos com adoção em massa, menor custo de produção e retorno mais previsível — algo que os jogos AAA de VR, caros e demorados, não conseguiram entregar no ritmo esperado.
Análise – O toque do Game Division
“O fechamento desses estúdios sinaliza que a Meta não está mais interessada em financiar grandes blockbusters de VR para vender hardware. Agora, o foco é utilidade prática e estilo de vida, deixando o ecossistema de jogos de alta produção em um estado de incerteza preocupante.”
Durante anos, a Meta sustentou a ideia de que exclusivos de grande orçamento seriam o motor do VR. Com o fechamento da Sanzaru, Twisted Pixel e Armature, essa estratégia é oficialmente abandonada.
O Quest continua relevante, mas agora depende quase exclusivamente de estúdios independentes e parcerias externas, um cenário mais fragmentado e menos previsível.
Conclusão
O encerramento desses estúdios marca um ponto de virada histórico para a realidade virtual. A Meta não está abandonando o VR, mas está mudando radicalmente sua função: de plataforma de entretenimento premium para ferramenta integrada ao cotidiano.
Para jogadores, fica a sensação de oportunidade perdida. Para a indústria, o alerta é claro: o modelo de grandes produções AAA em VR perdeu seu maior patrocinador.
O futuro do VR segue aberto — mas agora, muito mais incerto.
Fontes
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