Quando a Sony lançou o PlayStation 2, em março de 2000, todo mundo imaginava que ele seria um fenômeno nos games — afinal, prometia gráficos de nova geração, leitor de DVD e uma arquitetura muito mais poderosa que qualquer console anterior. Mas ninguém esperava que o PS2 seria envolvido em uma teoria peculiar e quase inacreditável: a de que o console poderia ser usado como arma militar.
Sim, parece exagero… mas isso realmente aconteceu. O governo dos Estados Unidos demonstrou preocupação com a capacidade do PS2, vários jornais da época noticiaram restrições e, para completar, rumores intensos afirmavam que países estavam comprando milhares de unidades do console para montar supercomputadores caseiros capazes de ajudar em cálculos militares.
Para muitos gamers, isso soa como uma mistura de ficção científica com paranoia. Mas a história é real, e hoje ela se tornou uma das curiosidades mais fascinantes da indústria dos videogames. Vamos entender de onde surgiu toda essa confusão e por que o PlayStation 2 foi visto — por um breve momento — como uma espécie de “tecnologia perigosa”.

A potência do PS2: o chip que assustou o governo dos EUA
O coração do PlayStation 2 era o famoso Emotion Engine, um processador desenvolvido em parceria pela Sony e a Toshiba. Para o mundo dos jogos, ele representava um salto absurdo-de-grande em performance, especialmente no processamento de gráficos 3D.
Só pra você ter uma noção, na época:
- Ele entregava 6,2 gigaflops — um número bem alto para o ano 2000.
- O console era considerado tão avançado que muitos computadores domésticos custando milhares de dólares não faziam melhor.
- O processador tinha funções específicas para cálculos vetoriais, algo muito útil não só para gráficos, mas também para simulações físicas e algoritmos científicos.
Aí entra o problema: o governo dos EUA tinha leis rígidas sobre exportação de tecnologias avançadas, especialmente processadores poderosos. Várias categorias de hardware que pudessem ser usadas em cálculos militares — como mísseis guiados, simulações balísticas e criptografia — precisavam de permissão especial para serem vendidas a certos países.
E o PS2, com seu Emotion Engine, entrou nessa lista de risco.
Sim, o console de videogame entrou na mesma categoria de componentes sensíveis usados em laboratórios militares e universidades de ponta. Isso por si só já é surreal.
A paranoia geopolítica da época ajudou
O começo dos anos 2000 foi marcado por um clima internacional tenso. Países como Iraque, Irã e Coreia do Norte estavam constantemente sob vigilância e restrições comerciais. A ideia de que um país poderia montar computadores clandestinos usando hardware barato preocupava os Estados Unidos.
E aí surgiu o rumor que explodiu nos jornais.
O boato que virou manchete: um país teria comprado 14 mil PlayStation 2
No final de 2000, veículos internacionais, incluindo jornais americanos, britânicos e japoneses, publicaram uma história curiosa: autoridades acreditavam que o governo do Iraque estaria importando milhares de PS2s para montar um mega sistema de computação.
A teoria era a seguinte:
- O PS2 era barato comparado a computadores avançados.
- Ele tinha um processador poderoso.
- Vários PS2s poderiam ser “clusterizados” — conectados uns aos outros — para formar um supercomputador improvisado.
- Esse supercomputador poderia ser usado para fins militares, especialmente cálculos de mísseis.
A manchete era perfeita demais para não viralizar. Alguns jornais chegaram a citar números: supostamente, o Iraque teria adquirido cerca de 14 mil unidades do console. A imprensa transformou esse rumor em um evento quase cinematográfico: um ditador montando uma arma de destruição em massa usando videogames.
Mas… isso tudo fazia sentido?

A verdade técnica: dava mesmo pra fazer isso?
Aqui entra a parte mais interessante:
Sim e não.
Sim, era possível conectar vários PS2s para formar um cluster de computação. Tanto era que, alguns anos depois, pesquisadores realmente fizeram isso em ambientes acadêmicos. Haviam até projetos universitários que demonstravam a viabilidade da ideia.
Mas não da forma exagerada que os rumores sugeriam.
Para transformar milhares de consoles PS2 em um supercomputador robusto, seria necessário:
- Hardware adicional
- Adaptações profundas no sistema
- Softwares personalizados
- Uma estrutura física complexa
- Muito mais energia e refrigeração do que o PS2 suportava
Ou seja: não era prático, não era simples, não era eficiente.
Qualquer país com capacidade militar real teria meios muito mais eficientes de montar sistemas computacionais — e não dependeria de videogames comprados em promoções de varejo.
Mas quando a teoria explodiu, o público queria acreditar. A história era boa demais.
O resultado: PS2 ganhou fama mundial (e até cult)
A polêmica durou meses. Alguns países chegaram a impor controles temporários na importação do console, especialmente no Oriente Médio.
E para a Sony?
Foi publicidade gratuita.
O PlayStation 2 virou uma lenda instantânea.
No fim das contas:
- O PS2 nunca virou arma militar.
- O rumor nunca foi comprovado.
- Mas a fama de “console tão poderoso que assusta governos” ficou registrada na história.
Por que essa história continua tão famosa?
Porque ela mistura três elementos irresistíveis:
- Tecnologia avançada
- Governo e teorias de exportação militar
- Um videogame que todo mundo queria ter em casa
É o tipo de história que parece saída de um filme, mas que realmente fez parte da cultura da época.
E, claro, ajuda o fato de o PlayStation 2 ter se tornado o console mais vendido da história, com mais de 155 milhões de unidades. O mito acabou acompanhando a fama.
Conclusão: o PS2 nunca foi uma arma… mas foi um ícone poderoso
A ideia de que o PlayStation 2 poderia ser usado para fins militares é quase poética: um console criado para diversão infantil e adulta sendo tratado como uma ameaça tecnológica.
No fim, o PS2 cumpriu seu papel original: revolucionar os videogames, marcar gerações e se tornar um dos aparelhos mais amados de todos os tempos.
Mas essa história maluca — de cluster, supercomputadores e suspeitas militares — vai continuar sendo uma das melhores curiosidades já registradas no mundo gamer.










