Resident Evil Requiem – O Recomeço Sombrio que Redefine o Survival Horror
Depois de anos alternando entre reinvenção e nostalgia, a Capcom finalmente entrega em Resident Evil Requiem um capítulo que não apenas continua a tradição da franquia, mas parece determinado a encerrá-la — ou pelo menos transformá-la profundamente. Com uma proposta que mistura terror psicológico, ação cinematográfica e uma estrutura narrativa dual, o novo título se posiciona como um dos lançamentos mais ambiciosos da série em décadas.
Mas será que ele realmente merece o status de melhor Resident Evil original desde 2005? Vamos analisar com calma.
| Ficha Técnica | Detalhes |
| Plataformas | PS5, Xbox Series X/S, PC |
| Desenvolvedora | Capcom |
| Tempo de Jogo | 11h – 14h (Campanha principal) |
| Nota Game Division | 9.5 / 10 |
Atmosfera: o medo voltou a respirar
Se existe um ponto praticamente incontestável nas análises, é a atmosfera. Requiem mergulha novamente no terror opressivo que marcou a virada iniciada em Resident Evil 7: Biohazard, mas amplia a escala de maneira considerável.
A iluminação é um espetáculo técnico. O uso intenso de sombras dinâmicas, reflexos realistas e ambientes urbanos decadentes cria uma sensação constante de insegurança. Não é apenas sobre sustos pontuais — é sobre tensão contínua. O jogador raramente se sente confortável. Cada corredor escuro parece esconder algo, e cada sala ampla traz a dúvida: é um respiro… ou uma armadilha?
Há também um cuidado evidente no design de som. Rangidos distantes, passos que ecoam sem origem clara, respirações ofegantes em momentos silenciosos — o jogo entende que o medo muitas vezes nasce do que não vemos.
Dois protagonistas, duas experiências
A maior inovação estrutural de Requiem está na alternância entre dois personagens jogáveis: Grace Ashcroft e Leon S. Kennedy.
Grace Ashcroft: vulnerabilidade como mecânica
Os trechos com Grace representam o lado mais puro do survival horror. Recursos escassos, confrontos que devem ser evitados e puzzles que exigem observação e paciência. A movimentação é deliberadamente mais contida, reforçando a sensação de fragilidade.
A experiência lembra bastante o clima de Resident Evil 7, mas com ambientes mais amplos e maior complexidade estrutural. Explorar com Grace é um exercício de tensão. Cada bala conta. Cada erro pode custar caro. E isso cria um tipo de imersão que muitos fãs sentiam falta desde os clássicos.
Leon S. Kennedy: ação sob controle
Quando o jogo muda para Leon, a dinâmica se transforma. O ritmo acelera, o combate ganha protagonismo e os confrontos se tornam mais intensos e estratégicos.
A sensação é próxima do que foi refinado em Resident Evil 4 Remake: combate fluido, inimigos agressivos e arenas que exigem movimentação constante. Ainda há tensão, mas agora acompanhada de poder de resposta.
Essa alternância cria um contraste interessante. Grace gera medo. Leon gera adrenalina. E o jogo usa essa mudança para evitar desgaste emocional excessivo, mantendo o jogador constantemente engajado.
Nem todos apreciaram essa estrutura — alguns críticos apontam que o ritmo pode parecer irregular — mas a maioria concorda que a dualidade é um dos grandes trunfos da experiência.
Narrativa: encerramento ou transição?
O título “Requiem” não foi escolhido por acaso. A história tem um tom de despedida. Sem entrar em spoilers, o jogo trabalha com a ideia de consequência — das ações passadas, das decisões morais e do peso acumulado ao longo da franquia.
Diferente de Village, que funcionava como uma jornada pessoal intensa, Requiem amplia o escopo. A ameaça parece maior. O impacto, mais abrangente. E há um claro esforço em conectar elementos de diferentes fases da série.
Em vários momentos, a narrativa lembra a importância histórica de Resident Evil 4, tanto no equilíbrio entre ação e terror quanto na construção de confrontos memoráveis. Mas aqui o tom é mais sombrio, menos aventureiro e mais melancólico.
O roteiro acerta especialmente nos momentos intimistas. As interações são mais humanas, menos caricatas. E isso ajuda a elevar o drama a um novo patamar dentro da franquia.
Gameplay: equilíbrio quase ideal
Em termos de duração, a campanha principal gira em torno de 11 a 14 horas para jogadores que exploram moderadamente. Quem foca apenas na história pode terminar em cerca de 9 horas, enquanto completionistas podem ultrapassar facilmente as 20 horas considerando colecionáveis, desafios e modos extras.
O design de níveis é um dos pontos altos. Há áreas semiabertas que incentivam exploração, mas sem transformar o jogo em um mundo aberto disperso. O backtracking é presente, porém mais orgânico do que em títulos anteriores.
Os puzzles retornam com mais força, principalmente nos trechos de Grace. Não são excessivamente complexos, mas exigem atenção e observação do ambiente — algo que os fãs mais antigos sempre valorizaram.
Já o combate, especialmente com Leon, é refinado. A inteligência artificial dos inimigos é agressiva, e os encontros exigem movimentação estratégica. Não basta atirar — é preciso administrar espaço, munição e posicionamento.
Recepção crítica e desempenho inicial
A recepção da crítica especializada foi amplamente positiva. Agregadores de notas colocaram o jogo na casa dos 88 a 90 pontos, posicionando-o como o Resident Evil original mais bem avaliado em duas décadas.
Além disso, os números iniciais no PC impressionaram: o jogo bateu recordes de jogadores simultâneos no Steam, plataforma da Valve, superando picos alcançados por títulos anteriores da franquia. Isso indica um interesse massivo no lançamento.
Ainda não há números oficiais consolidados de vendas divulgados pela Capcom, mas os indicadores sugerem um início extremamente forte. Considerando que Resident Evil Village ultrapassou 3 milhões de cópias nos primeiros dias e que o remake de RE4 se aproximou dos 10 milhões ao longo do tempo, Requiem parece ter potencial para alcançar patamares semelhantes.
Pontos fortes
- Atmosfera opressiva e tecnicamente impressionante
- Estrutura dual que renova a dinâmica da campanha
- Equilíbrio eficaz entre terror psicológico e ação intensa
- Narrativa mais madura e emocional
- Design de níveis inteligente e recompensador
Pontos fracos
- Ritmo pode parecer irregular devido à alternância de protagonistas
- Algumas sequências mais cinematográficas reduzem momentaneamente a liberdade
- Certos momentos de fan service podem soar excessivos para quem busca algo totalmente novo
Conclusão: um novo marco para a franquia
Resident Evil Requiem não é apenas mais um capítulo numerado. Ele representa uma síntese de tudo o que a série experimentou nas últimas duas décadas.
Do terror claustrofóbico de Resident Evil 7 à ação refinada herdada de Resident Evil 4, passando pelo equilíbrio estilístico consolidado nos remakes recentes, o jogo encontra uma identidade própria ao combinar essas influências em algo coeso e ambicioso.
Não é perfeito. O ritmo desigual pode incomodar alguns jogadores, e a tentativa de abraçar passado e futuro simultaneamente gera pequenas inconsistências. Ainda assim, o saldo é extremamente positivo.
Requiem mostra que a franquia ainda tem fôlego criativo. Mais do que isso: mostra que a Capcom entende profundamente o que faz Resident Evil funcionar — medo, tensão, gerenciamento de recursos, personagens marcantes e confrontos memoráveis.
Se este for realmente o encerramento de um ciclo, ele acontece em alto nível. Se for apenas o início de uma nova fase, então a série parece mais preparada do que nunca para o que vier a seguir.
Em qualquer cenário, Resident Evil Requiem já se consolida como um dos capítulos mais relevantes da história da franquia.










